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Em minha última viagem à Índia, eu me deparei com algo que eu nunca havia visto antes: uma comunidade política totalmente nova – a “classe média virtual” da Índia. Seu surgimento explica muito sobre o aumento dos protestos sociais no país, assim como em lugares como a China e o Egito. Essa é uma das coisas mais emocionantes que estão acontecendo no planeta hoje em dia. Historicamente, nós costumamos associar as revoluções democráticas à obtenção, por parte das classes médias ascendentes, de determinados níveis de renda per capita anual – digamos, US$ 10 mil por ano – que permitem que as pessoas se preocupem menos com suas despesas com alimentação e moradia e mais com a obtenção do status de cidadãos com direitos e opiniões para influenciar seu próprio futuro. Mas o mais fascinante é o fato de a difusão maciça do acesso barato e eficaz à internet, via celulares e tablets, durante a última década ter reduzido drasticamente os custos da conectividade e da educação – tanto que um número muito maior de pessoas da Índia, da China e do Egito, apesar de ainda ganharem apenas alguns dólares por dia, agora têm acesso ao tipo de tecnologia e aprendizado anteriormente associado apenas à classe média.

É por isso que hoje a Índia tem uma classe média de 300 milhões de pessoas, além de outras 300 milhões de pessoas que fazem parte da classe média virtual – um contingente que, apesar de ainda ser muito pobre, exige cada vez mais os direitos, as estradas, os serviços de energia elétrica, os policiais não corrompidos e um bom governo – demandas normalmente associadas às classes médias emergentes. Esses cidadãos estão colocando mais pressão do que nunca sobre os políticos eleitos da Índia para que eles se emendem e governem do jeito certo.

“Graças à tecnologia e à disseminação da educação, mais do que nunca um número cada vez maior de pessoas de renda muito baixa estão ganhando poder. Por isso, elas pensam e agem como se fossem da classe média, exigindo segurança e dignidade humana e direitos de cidadãos”, explicou Khalid Malik, diretor do Departamento de Relatórios sobre o Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU) e autor do livro “Why Has China Grown So Fast for So Long?” (Por que a China cresceu tão rápido por tanto tempo?, em tradução livre). Essa é uma mudança gigantesca. A Revolução Industrial foi uma história que envolveu 10 milhões de pessoas. Esta é uma história que envolve dois bilhões de pessoas.

E ela não é impulsionada apenas pelo os 900 milhões de celulares em uso atualmente na Índia nem pelos 400 milhões de blogueiros da China. O escritório do Departamento para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos aqui em Nova Déli me colocou em contato com um grupo de empreendedores sociais indianos que os EUA estão apoiando – e o poder das ferramentas que eles estão entregando nas mãos da classe média virtual da Índia, a preços baixos, é de cair o queixo. A Gram Power está criando microrredes e medidores de eletricidade inteligentes para fornecer energia elétrica de forma confiável e escalável para as áreas rurais da Índia, onde 600 milhões de indianos ainda não dispõem de uma oferta regular (às vezes, nem de oferta nenhuma) de eletricidade para poderem trabalhar, ler e estudar. Por 20 centavos de dólar por dia, a Gram Power oferece a moradores de vilarejos rurais um cartão de energia elétrica pré-pago capaz de alimentar todos os eletrodomésticos deles. A Healthpoint Services está fornecendo água potável para famílias de seis pessoas por cinco centavos de dólar por dia, além de consultas médicas via internet por 20 centavos de dólar a visita. Atualmente, a VisionSpring está distribuindo exames e óculos de grau para os cidadãos pobres da Índia por preços que vão de US$ 2 a US$ 3 cada. O Instituto para a Saúde Reprodutiva está alertando mensalmente as mulheres a respeito de seus dias férteis usando mensagens de texto – que informam que o sexo sem proteção não deve ser praticado no período indicado para evitar uma gravidez indesejada. E a Digital Green está fornecendo sistemas de comunicação de baixo custo a agricultores e grupos de mulheres indianos para promover um intercâmbio e mostrar a cada um deles suas melhores práticas por meio de filmes digitais projetados em um chão de terra batida.

Estas tecnologias ainda precisam ganhar escala, mas estão no caminho certo. E elas estão permitindo que outros milhões de indianos pelo menos acreditem que fazem parte da classe média e se sintam dotados do poder político que acompanha essa condição social, diz Nayan Chanda, que dirige a publicação YaleGlobal Online Magazine e é co-editor de “A World Connected: Globalization in the 21st Century” (Um mundo conectado: a globalização no século 21, em tradução livre).

Em dezembro passado, uma indiana de 23 anos – cujo pai fazia turnos dobrados como manipulador de bagagem em um aeroporto e recebia cerca de US$ 200 por mês para que sua filha pudesse estudar e se formar fisioterapeuta – sofreu um estupro coletivo dentro de um ônibus após ela e um amigo terem ido ao cinema. Posteriormente, a moça morreu no hospital devido aos ferimentos sofridos durante o estupro.

Ela fazia parte dessa nova classe média virtual da Índia, que é dotada de aspirações elevadas, e seu estupro brutal e posterior morte desencadearam protestos em todo o país para reivindicar melhorias nas práticas do governo.

“Esse é um daqueles momentos críticos que ocorrem durante a história de um país, quando um conjunto de cidadãos, que até o momento se mostrava satisfeito com os ganhos econômicos, passa a querer mais do que apenas conforto material”, disse Chanda. “Eles querem o reconhecimento de seus direitos, eles querem qualidade de vida e, mais importante, as boas práticas de governo que eles passaram a esperar ao olhar para o restante do mundo”.

Isso também vale para a China. Em dezembro passado, observou Chanda, “após um censor chinês de Guangzhou ter cometido uma intromissão sem precedentes ao invadir as instalações do jornal Southern Weekend e reescrever seu editorial de Ano Novo – transformando uma crítica em um panegírico do Partido Comunista –, os jornalistas chineses explodiram. Pela primeira vez na história do país, os jornalistas exigiram publicamente a demissão do censor, e o Twitter chinês e a rede social Weibo (espécie de Facebook da China) se encheram de raiva”.

E, é claro, a Primavera Árabe foi desencadeada, não por estudantes universitários de classe média, mas por um vendedor de verduras tunisiano que aspirava entrar para a classe média e sofreu abusos por parte de policiais corruptos (em um ato de desespero, o verdureiro Mohammed Bouazizi, de 26 anos, colocou fogo no próprio corpo por não conseguir trabalhar como vendedor – Bouazizi morreu). Líderes, cuidado: os cidadãos de seus países não precisam mais fazer parte da classe média, em termos econômicos, para terem acesso à educação, às ferramentas e à mentalidade da classe média nem para sentirem que têm o direito de estabelecer uma conversa de duas mãos e serem tratados como cidadãos com direitos reais e que são governados por um governo decente.

Tradutor: Cláudia Gonçalves